16.6.08

A jornada é o destino

Cheguei em casa, retornando do Canadá, no final da tarde de segunda-feira. Havia levado junto a bicicleta de forma a poder realizar alguns treinos por lá, mantendo assim a forma que esperava ter polido para o Brasileiro. Na terça-feira, entreti-me durante o dia inteiro com a realização de uma prova de admissão para a Universidade de Munique, que me foi enviada pela manhã e cujas respostas deveriam ser retornadas, por fax, até o final do dia. Na quarta-feira, fiz um último treino forte no circuito da Beira-Rio, e no dia seguinte, apenas uma sessão leve, para recuperar as pernas.

Neste interim, meu pai teve confirmada uma viagem aos Estados Unidos, fazendo com que ele abandonasse os planos de dirigir comigo até Morretes, distante cerca de 50km de Curitiba. Parti então numa (frustrada) busca por um motorista, até concluir que não deixaria 750km de direção me impedirem de coroar a preparação de quase seis meses - e assim, ao raiar da sexta-feira, coloquei-me na estrada.

Foi muito mais tranquilo do que eu esperava, mesmo com as condições adversas de alguns trechos da BR-101. Cheguei em Morretes ao cair da noite, para descobrir que meu quarto, reservado no único hotel da cidade, já estava ocupado. A recepcionista tentou me convencer a dividí-lo com o sujeito, mas não era meu plano compartilhar um quarto com um perfeito estranho. Com um pouco de sorte e ajuda de um dirigente de outra equipe, encontrei uma simpática pousada onde ainda haviam quartos disponíveis, e lá me instalei.

No sábado realizava-se a prova de resistência, na distância de 190km, a qual optei por não participar para conservar as pernas para a disputa de domingo. Optei por uma pedalada de reconhecimento, percorrendo o percurso de 32km onde seria disputado o contra-relógio do dia seguinte. Depois de um rico prato de massa no almoço, uma ciesta e uma lavagem geral na bicicleta, entreti-me conversando com alguns colegas paulistas, contando um pouco sobre a situação do ciclismo aqui no Sul.

Dormi surpreendentemente bem, considerando o nervosismo que usualmente me afeta às vésperas de competições importantes. Porém, ao acordar com o alarme às 6h45 do domingo, fui surpreendido com o barulho de chuva e um cenário completamente encharcado. Café da manhã, coloquei a bicicleta e o restante do equipamento no carro, e dirigi-me para a largada. Eu era o 39o de 91 ciclistas a largar (os primeiros largavam de minuto a minuto, e os dez últimos com intervalos de dois minutos). Chovia muito, o que levou a organização a atrasar a primeira largada em mais de uma hora. Ainda assim, fiz todo meu aquecimento na chuva, e ao dirigir-me para minha largada, ainda caia alguma água.

Um minuto, e sou chamado para o alinhamento. Trinta segundos, já posicionado na rampa de largada. Vinte, dez, três, dois, um, e estou a caminho, inaugurando minha nova roda Renn 575, que faz um barulho fenomenal à cada revolução. Duas curvas para sair da cidade, e na segunda, quase resvalo ao passar por uma faixa molhada da pista. Tento não desconcentrar e impor um ritmo na longa reta dos primeiros 6km, ao final da qual já estava ao alcance do ciclista que largara um minuto à minha frente. Ultrapasso-o poucos quilômetros depois, mantendo um bom ritmo até a marca de 12km, onde iniciava-se a primeira subida do percurso. Fiquei bastante satisfeito com a minha performance contra a gravidade, mas claramente um contra-relógio com altimetria tão irregular não me favorecia. Na descida, ainda muito molhada, tive de segurar um pouco nos freios, o que me custou alguns segundos à mais. Outros cinco quilômetros ondulantes antes da última subida longa, que consegui transpor sem quebrar o ritmo. Na descida, passo pela placa indicando "Faltam 10km". Mais uma curva fechada para a direita, negociada em baixa velocidade, e entro no último trecho ondulante, me aproximando da cidade de Morretes. Nos últimos 3km, já no perímetro urbano, um pequeno público encontra-se distribuido às margens da rodovia. Últimas curvas adentrando o centro histórico, desvio de um pequeno incidente com uma caminhonete que não respeitou as direções da fiscalização de trânsito, e na reta final, completo um esbaforrido sprint de 300m para cruzar a linha.

Descubri que, ao cruzar a linha, tinha o 7o melhor tempo (45m09s) - o melhor era então de Magno Nazaret (Scott), com 42m23s - mas este logo foi melhorado pelo ex-Elipse Software Rodrigo do Nascimento (Sales/Pinarello), que cravou 41m17 e parecia favorito para vencer a disputa. O tempo está mostrando sinais de melhora, a chuva sendo substituida por um tempo nublado, e as nuvens devagar dissipando-se devido ao leve vento serrano. Aqui e ali, já se viam alguns raios de sol. Outros atletas iam completando o percurso, eu vendo minha colocação caindo sistematicamente, mas na hora, me sentia muito leve, quase ignorando o cansaço pós-prova. Uma sensação de dever cumprido.

(Ao final, apenas o então campeão da modalidade, Pedro Nicácio (Scott), e o novo reinante, Cleberson Weber (DataRo), conseguiram melhorar o tempo do Rodrigo, que levou para casa uma fantástica medalha de bronze.)

Volto para a pousada para um banho, ponho a bicicleta no carro, e me encontro para almoçar com uma turma que iria até Florianópolis para seguí-los por um caminho diferente (via balsa em Guaruvá e Itapona), encurtando o trajeto de volta. O regresso foi tranquilo, ainda que bastante longo. Para finalizar, compartilho uma mensagem que enviei para alguns amigos quando cheguei em casa

"São 2h10 da manhã e eu acabo de chegar em casa depois de dirigir por quase 12h voltando de Morretes.
(...)
Foi uma jornada incrível, desde o primeiro treino no início do ano, passando pelas viagens para Alemanha, Uruguai, Canadá, os inúmeros treinos na companhia de vários de vocês, até completar os 32km do contra-relógio, encharcado, sujo, quase sem fôlego, mas de alma limpa. Uma experiência fantástica, e só posso agradecer a vocês que, mesmo no final, quando eu tinha dúvidas, sempre estiveram lá para dar o empurrão que eu precisava.
(...)
Meu resultado - obtive o 30o lugar, dentre 77 ciclistas que completaram a prova - foi talvez apenas mediano. Uma série de fatores podem ter contribuido para eu não ter adentrado o esperado top 20, mas estes são agora irrelevantes. Muito mais importante foi a sensação, ao cruzar a linha de chegada, de ter honrado toda a preparação fazendo o melhor possível naquela ocasião. Neste meio ano, muito além de treinos e corridas memoráveis, viajei para lugares novos, conheci pessoas incríveis, fortifiquei amizades e descobri mais sobre mim mesmo do que esperava. O caminho foi tão cheio de atrativos que, sem desmerecer a destinação final, já havia feito toda a empreitada valer a pena.

Que a(s) jornada(s) até o(s) próximo(s) destino(s) seja(m) no mínimo tão frutífera(s)!

1 comment:

Luciana said...

Parabéns pelo empenho e pelos resultados! Nem sempre a gente consegue as coisas exatamente como quer, mas a única forma de tentar consegui-las é se esforçar e fazer o melhor possível em cada ocasião, como tu fez.
Mais e mais sucesso nas próximas empreitadas =)