8.4.11

A Sagração da Primavera

A estação, novamente, inspirava sua escrita. Elegia uma composição de Stravinsky, baseada na imagem de um ritual pagão, para intitular seu conto - mas, poderia, igualmente, empregar "Todos os clichês do mundo": vivia, naquele momento, um apanhado de todas as frases que vinha colecionando desde sua adolescência. Dividido entre as duas possibilidades, e insatisfeito com títulos espraiando múltiplas linhas, deixou a imagem e o simbolismo da primavera batizarem o texto.
- - -
O menino, que acreditava ter compreendido o segredo da vida vendo as pedras que choravam sozinhas no mesmo lugar, mas agora comprendia, em toda sua força, a distinção entre conhecer o caminho, e percorrê-lo, havia dormido pouco. Inquietava-se com preocupações tolas, tolas pois sabia que não seriam seus pensamentos irriquietos que as resolveriam. Esforçava-se em não focar sua concentração nestas angústias, e, tal aquele que, na esperança de dormir, mantém-se desperto pela consciência de ainda estar acordado, fracassava em suas tentativas justamente pelo empenho de seus esforços.

Sua terapia, e a única que surtia efeito naquelas circumstâncias, consistia em pedalar - e encontrava na presente situação a melhor justificativa para dedicar-se com afinco aos treinos. Naquele primeiro dia após o equinócio, marcando o início da estação, pedalava rumo ao norte, contra o vento, e apesar da resistência deste, sentia-se leve, e quase como se propelido, talvez pelo sol a bater em suas costas, ou pelos cheiros que emanavam dos campos ainda frescos com a chuva do dia anterior. Alegrava-se pelo trajeto a ser cumprido - havia escolhido escalar até o alto da montanha do castelo da Pedra de Fogo, subida que não era particularmente longa, ou íngreme, mas tinha em seu trajeto elementos - as viradas, os trechos cruzando um pequeno vilarejo, ou atravessando um bosque, a vista do alto - que lembravam-no de outras subidas, popularizadas pela mística francesa dos vinte e três dias em julho, deslumbre ao qual ele havia vivenciado, quase sete anos atrás. Dançando sobre os pedais, era remetido de volta àquele período, onde, escalando tais montanhas, desconhecia limites para suas ambições sobre duas rodas. Trazido de volta pelo ácido lático a queimar em suas pernas, suando e com a respiração ofegante, mas de alma límpida, decidia investir em uma nova empreitada atrás daqueles sonhos de outrém.
- - -
Quase uma semana depois, às vésperas do mês de abril, deixava o campus rumando ao estacionamento, e encontrava-se eufórico, e perplexo, pois não sabia o porquê de sua euforia.

Os treinos daquela semana, e sua apresentação na primeira corrida da temporada, haviam sido bons, mas os números nada tinham de espetacular, e sua colocação, especialmente dada a magnitude de seus objetivos esportivos, não havia impressionado como esperava.

Igualmente, a reunião com seu orientador havia sido produtiva, mas já tivera melhores e mais inspirantes; sua a tentativa de obter apoio para participar de uma conferência em além-mar havia sido recebida com entusiasmo apenas moderado, e mantinha aquele ar parcialmente cínico para com a importância de seus resultados, que ainda não sabia como encaixar no contexto daqueles planos e ideais que, anos atrás, o haviam impelido a seguir pelo caminho do doutoramento. Assim mesmo, apesar da certificar-se que dali emanavam sensações positiva, sabia que a origem daquele estado de espírito não se encontrava no trabalho.

Muito possivelmente, acreditava, também não estava esta origem no relacionamento, se não conturbado, pelo menos delicado e altamente peculiar, que iniciava. A situação e as implicações da mesma ele ainda não compreendia por inteiro, e apesar de alguns sinais promissores, não tinha nenhum posicionamento concreto, e talvez isto fosse a única certeza que tirava de uma extensa reflexão sobre o assunto - a ausência de absolutos, quase como exigência para a plenitude da liberdade de amar, ou em um nível mais fundamental, se algo pode ser mais fundamental que o amor, todo o ser e estar.

Caminhava ainda em direção ao estacionamento, e contemplava novamente o lindo dia de primavera - lembrando-se que havia treinado do lado de dentro, e assim deixado de aprimorar seu bronzeado, supunha não ser este o motivo de sua alegria desenfreada. Dirigia-se para casa, fazendo planos para, após as compras, ter um encontro romântico com a revisão de um artigo que intendia submeter nos próximos dias - e assim, nesta completa ausência de qualquer indicativo que isto justificasse, sentia-se como o dono do mundo, ou algo bastante próximo disso, e a sensação lhe era simplesmente fantástica. Saia do campus onde trabalhava, brevemente registrando seus pensamentos e sensações em uma nota rápida, e percebia estar feliz, e não entendia o porquê, mas deseja ardentemente compreender.

Lembrara então que, para aqueles que não houviam a música, os que dançavam pareciam loucos. Sorriu, e dançou ao som da melodia que, inaudivelmente, compunha a trilha sonora do seu caminhar.
- - -
Chegou ao trabalho numa manhã de sexta-feira, onde temperaturas mais amenas, contrastadas com a tarde de verão experienciada no dia anterior, o lembraram que a primavera estava apenas por começar. Adentrou seu escritório, cumprimentou seus colegas, preparou um café (insistia ser o melhor cappuccino ao norte do Danúbio). Degustando-o, o já morno leite adocicado contrastando com o amargo do café, contemplou a estação, e todas as metáforas que eram representadas pelo seu início. Naquele momento, tinha consciência de que este epílogo não simbolizava o fim. As engrenagens ainda estavam a girar, águas ainda iriam correr, e o vento, lá fora, muito ainda viria a soprar. Mas, paradoxalmente, lembrando-se de que a jornada era seu destino, concluiu com felicidade que estava continuamente a chegar.

1 comment:

Clarice said...

Simplesmente lindo! Te amo demais. Mami